Do momento presente que se chama tranquilidade

terça-feira, janeiro 03, 2017

Existe um momento em que as coisas se desamarram. Aí você acorda muito cedo e, como se fosse uma carta que atravessou o oceano, o e-mail chega todo amassado, quase aberto. E as palavras são doces e o café está quente na caneca e os passarinhos cantam. O nó se vai e você sorri de amor, simples assim. Amor desses puros, de faz de conta, de casamento atrás da porta, de beijo de mentirinha. De repente, você, dentro do seu vestido amarelo comprido demais porque tem que servir até o fim do ano, encontra o menino que usa o sapato dois números maior porque tem que durar até o próximo aniversário. E vocês se entendem e dão as mãos e riem baixinho, porque sabem que são da mesma turma. Então você esquece que tem que voltar cedo pra casa, que não pode subir na árvore com ele porque as mãos vão ficar com calos e sua mãe não vai gostar. E você sobe, e você passeia pelos galhos, em uma manhã bem bonita de outono. E, lá de cima, no ramo mais alto, as coisas se desamarram de uma vez e você olha para o alto e vê o céu bem azul, respira fundo e acha bom. E não cai. Porque, ali, te segurando, existem umas palavras nada duplas, uma mão de verdade que te acalma se você ficar com medo de cair.

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